Histórias de Moradores da Vila Olímpia

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar o acervo de vídeos e histórias com depoimentos dos Moradores.


História da Moradora: Shoko Kimura
Local: São Paulo
Ano: 11/11/2004

História
História:

P - Projeto do Serviço de Psicologia InCor 25 Anos, depoimento da dona Shoko Kimura, entrevistada por José Carlos, Rosana Miziara e Sandra. São Paulo, dia 27 de Agosto de 1999, realização Museu da Pessoa. A entrevista é na dependência do InCor, entrevista número ISP 003. Dona Shoko, a gente começa perguntando para a senhora o seu nome, data de nascimento e local de nascimento.

R - Está bom. Vou repetir tudo isso? (risos)

P - Esse é o problema do cadastro antes.

R - Bom, eu me chamo Shoko Kimura, nasci no dia 28 de Fevereiro... O que mais mesmo?

P - A cidade de nascimento.

R - Ah, em Lins, no interior do Estado de São Paulo, noroeste do Estado.

P - A data de nascimento?

R - 28 de Fevereiro de 1942. Tem uma história interessante a respeito da data do meu nascimento. Isso contado pela minha mãe, que o meu nome é Shoko, que significa filha de Cingapura tomada pelos japoneses durante a guerra.

P - Nossa

R - É, um nome, para a história, muito interessante Eu trabalho muito com isso com os meus alunos. Os japoneses aqui no Brasil eram considerados inimigos? E os que estavam na roça, nas fazendas, nos cafezais, perderam contato... sempre tinha algum também puxando enxada o tempo todo... e a possibilidade de contato, de ouvir rádio, eles ouviam clandestinamente, no sigilo. E eles souberam que os japoneses tinham tomado Cingapura e alguns dias ou semanas depois - eu não lembro, eu nunca conferi exatamente qual foi esse dia da tomada de Cingapura - eu nasci, e os japoneses e meus pais, muito felizes com essa grande bravura dos japoneses me deram esse nome, porque Cingapura passou a se chamar (Shonantu?), foi batizada pelos japoneses. (Shonantu?)

P - A senhora sabe o que significa (Shonantu ?)?

R - É um nome... Eu sou analfabeta em japonês. E aí minha mãe... Que é Cingapura durante a guerra. Minha mãe pegou o Sho de (Shonantu ?) e ko, vocês devem saber, significa filha. Então eu sou filha de Cingapura tomada pelos japoneses durante a guerra. Foi um nome de guerra. E o interessante é que anos depois, quando nasce a minha irmã, logo depois de mim... 44 ou 45, não sei, minha mãe já estava prevendo o fim da guerra, então ela deu o nome de Kasuko, filha da paz. Vocês sabem que os ideogramas japoneses, dependendo da composição do que é colocado lá, uma coisa pode ser lida de um jeito como de outra... ideograma é muito complicado, não é assim. Então ela é filha da paz e eu sou filha da guerra. (risos)

P - Que ótima esta história E os pais da senhora faziam o que em Lins?

R - Em Lins?

P - É.

R - Isso quando também? Precisa ver?

P - Logo que a senhora nasceu.

R - Quando eu nasci? Assim, eu sou a sexta filha, a última que nasceu no cafezal. Eles eram sitiantes, pequenos proprietários, ambos vieram e entraram para as grandes fazendas de café, década de 30, 40...

P - Eles já vieram casados do Japão?

R - Não, se encontraram aqui. E interessante também a minha mãe contando a travessia do Equador e a viagem dos imigrantes. Ela dizia que... Eu ia dar essa entrevista para o pessoal dos Estudos Rurais Avançados, não tem um negócio...

P - Estudos Rurais, o CERU.

R - Isso, o CERU, isso. Porque é uma história que interessa a eles, mas está tudo bem.

P - Mas conta para a gente.

R - Mas é o seguinte. Ela dizia que os imigrantes vinham em grandes navios... Primeiro como é que eles foram recrutados lá no Japão. A família da minha mãe não veio como imigrante, eles vieram por conta. Resolveram pegar as últimas economias e vir tentar a grande riqueza que disseram que tinha aqui. Diziam o seguinte, que eles indo para um lugar chamado Brasil... E essa história deve ter rolado bastante, que depois eu fui conferir também com umas amigas de origem japonesa e elas disseram que foi dito a mesma coisa para os pais delas. Então é o seguinte, indo para um lugar chamado Brasil eles iriam encontrar um país com muitas florestas e com muitas riquezas e eles entrando pela floresta eles iriam encontrar pepitas de ouro. Lógico que eles iriam enriquecer.

P - O Eldorado?

R - É. Mas é claro, como é que eles viriam para o Brasil? Alguém teria que financiar. E seriam os fazendeiros, o governo de São Paulo e eles teriam que pagar em forma de trabalho. Ou seja, é isso, eles vieram correndo para catar pepitas de ouro nas florestas. (risos) Então ela dizia que os navios onde vinham os imigrantes, os imigrantes vinham na parte mais baixa, correspondente ao porão. E ela dizia que tinha assim, um monte de imigrante, mais ou menos uns 200, e não eram compartimentos individualizados, não. Eram grandes dependências com todo mundo lá passando muito mal, sabe? Cheio de vômito, dejetos... Lembra alguma história. De navio negreiro, mas não era tão terrível, é claro. Morria muita gente E como ela não veio como imigrante, ela estava num andar superior lá, mas lá o navio joga muito, parte superior do navio joga muito. Ela praticamente viajou na parte de baixo, junto com os imigrantes. E ela conta que era assim, fedia, cheiro mau, mau. E aí a travessia do Equador era festa.

P - Tinha um simbolismo todo especial?

R - É, de atravessar o Equador. E ela foi coroada a rainha da passagem do Equador e tudo.

P - É mesmo? Que bacana

R - E assim, chegando em Santos eles descem... Ih, a história de vida minha e da minha mãe... Também a da minha mãe é minha. Eles descem no porto, eles são embarcados lá para casa da imigração que tem aqui no Brás.

P - É, o Museu... Museu é agora. A casa, a Hospedaria do Imigrante.

R - Agora é Museu. Isso, Hospedaria do Imigrante, isso. No Brás, aqui na Mooca. No Brás, Mooca. E no Porto de Santos chegam imigrantes de tudo quanto é origem. E era costume entregar para cada um deles... Pensando bem até que era um ato, de uma certa forma um atendimento que hoje em dia você não pensa que nordestino recebe esse tratamento quando chega. Eles recebiam... Eu suponho que seria do jeito que ela acha que foi, um salame e um par de botas. Porque a maior parte dos japoneses também, vindos da zona rural, principalmente do sul. O meu pai era do sul. O sul é a zona pobre do Japão. Muitos não conhecem sapatos, então eles recebem um par de botas e um treco... Um salame, que ela dizia que cheirava muito mal. Para eles não faz parte da dieta japonesa, mas com certeza os italianos, os portugueses, os espanhóis recebiam um salaminho. Um pão, um salame e um par de botas e eram embarcados lá para a Hospedaria. Isso era para eles, japoneses, um choque cultural. E ela contava que pela janela do trem os japoneses jogavam aquela coisa fedida, que era o salame. (risos)

P - Mas é uma lembrança olfativa super forte. O cheiro do navio, o cheiro do salame...

R - Isso. Então são coisas que ela contava da vinda. Até que eles se enfiaram aí pelos cafezais todos. E meu pai não falava muito dessas histórias todas. Ela falava muito. Ela entrou numa fazenda depois de vários insucessos que a família teve, torrando mesmo aí os últimos tostões. Eles não eram da zona rural, eles eram urbanos, não tinham nenhum traquejo com terra, e ficaram realmente na miséria. Entraram numa fazenda de café junto com os mineiros e baianos e, aí, nessa rodada toda eles devem ter se conhecido e se casaram. Aí nasceram oito filhos. E o imigrante, fazendo aquela poupança, aquela... E geralmente família grande. A família do meu pai era muito grande, eles eram em seis, e ela foi para a casa do meu pai morar com a família dele. E a poupança permitia depois de algum tempo adquirir um terreno. Também com seis braços puxando a enxada eles... Mais para frente... Mas aí já são as áreas de café decadentes. Portanto já na década de 30 já não era tanto.

P - Já estava em baixa.

R - Já estava em baixa. E as terras cansadas, então as propriedades com um preço mais razoável... E eles entraram numa colônia só de imigrantes japoneses que tinham seus pequenos sítios...

P - Uma espécie de cooperativa?

R - Não, não. Não chegava a ter... Acho que em São Paulo não chegou a ter cooperativa não. Eu suponho que... Isso um dia eu vou pesquisar, sabe? Eu vou lá.

P - Eu acho que o Museu da Imigração Japonesa tem alguma coisa sobre cooperativa.

R - Pode ser. O livro do Randa... Pode ser que sim, porque o Randa também. O Randa, Takaoka, Mabi, esse pessoal era também da mesma região, noroeste lá.

P - Takaoka?

R - É, todos eles eram daquela região. Se não era, eles andavam muito por ali.

P - O filho do Takaoka andou pesquisando isso.

R - É?

P - É.

R - O Carlos?

P - É.

R - Ah, sei. Eu imagino que tenha sido uma grande propriedade, uma fazenda que depois foi retalhada em pequenos lotes e foram vendidos e formaram uma colônia, certo? Era isso. Mas o que é que eu estava falando mesmo? Esqueci.

P - Sobre a região do nascimento. Foi a sua casa de infância nesse local?

R - Isso. Mas eu saí com dois anos. Eu já sou a última que nasceu no sítio, no cafezal.

P - Nessas terras que eles adquiriram?

R - É, que cada uma das famílias tinha. E aí quando eles entraram, com certeza o solo já não rendia tanto, e aí passaram a render cada vez menos. O meu pai catou a família e zanzou pelo interior. É aquele roteiro desse pessoal das colônias quando sai da fazenda em decadência... No caso deles nem era fazenda, o sítio. Mas aí foi fazer pequenos negócios. O meu pai não era analfabeto... Os dois não eram analfabetos. E ele conseguiu aprender a escrita ocidental, passou a arranhar o idioma português, mal e mal. Então ele conseguia pelo menos algum tipo de colocação numa cidade. Aí ele rodou, catou a família e foi indo. Nós saímos do sítio quando eu estava fazendo dois anos e minha mãe estava grávida esperando a filha seguinte, a filha da paz. E aí fomos para... Rodamos em vários municípios de lá: Pompéia, Marília, acho que Birigüi... Vários pequenos municípios daquela região, mas sempre voltando, porque o japonês, como é um trabalho familiar, o mais velho sai e ficam os irmãos no sítio. Cada um foi casando, foi saindo, ou saiu e continua agregado, mas o fato é que tinha um irmão menor dele que ficou cuidando da fazenda... Do sítio... Eu falo fazenda, tanto faz. É a vontade da fazenda. (risos) Então ele voltava sempre para Lins. Saía de uma cidade, voltava, não dava certo, voltava, ia e vinha. E ficou assim até... Foi em 44 ou 45 que ele saiu da roça mesmo, saiu do sítio. Ficamos em Lins, aí na cidade, na zona urbana mesmo. Ele trabalhou sempre na Cooperativa de Cotia. E em 50 saímos, viemos para São Paulo.

P - 50?

R - Isso. P/3 - Esse período com essas mudanças todas deve ter sido bem turbulento. Porque tinha acabado a guerra, foi o período da guerra. Para a família se instalar aqui...

R - Você sabe que a minha mãe não entrava muito em detalhe? E ela era contadora de história, tudo o que eu sei é porque ela contava. Ela era uma grande contadora de história. O meu pai não, o meu pai era outra coisa. Hoje eu penso que ele seria o que a gente chama de animador cultural. Porque lá no sítio, na colônia, eles só puxavam enxada o dia inteiro e não tinham lazer nenhum. O meu pai vinha para Lins, para a cidade, alugava uns filmes, levava aquele aparelhão lá, grande, punha um panão, um lençol grande, branco, e levava para lá. E eu lembro de ter visto muito na infância, e depois que a gente saiu... Mas eu ia muito na casa do sítio, ficava na casa lá que o meu tio que estava cuidando. Eu lembro muito desse fato, que a gente via muito O Gordo e o Magro, os dramalhões japoneses, desenhos animados, Urso Panda... E ele fazia isso, gostava de fazer esse tipo de coisa. Com relação ao Manabu Mabi também ele teve uma relação assim, apadrinhou o Manabu. O Manabu era bem mais novo. E o Manabu era agregado de uma família vizinha. E eu sei que ele levava tintas... Ele gostava de fazer essa transação para lá e para cá, ele não servia para puxar enxada. Não tinha como, não é?

P - E quem exercia autoridade na sua casa, seu pai ou sua mãe?

R - Que tipo de autoridade você fala? O que você quer dizer com isso?

P - Autoridade, assim, de mandar, dar as ordens...

R - Ah, minha mãe, minha mãe. A minha mãe era muito regrada, muito organizada. E ela mandava, sim. Mas o japonês, na maior parte das vezes ele manda não gritando, não falando, mas ele tem aquele olhar de lâmina, sabe, que faz assim? (risos)

P - Não precisa falar nada?

P - Não é por palavras.

R - Não, é só lançar aquele olhar...

P - E formação religiosa? Educação religiosa?

R - Ah, meu pai era de família budista e minha mãe de família católica no Japão.

P - Católica?

R - É. Católica, mas aqui no Brasil ela resolveu ser protestante. Então é...

P - E o seu pai era budista? Continuava budista?

R - Continuava budista, a família dele era budista. Mas você perguntou sobre autoridade, ela dava a tônica da casa, o que tinha que fazer... Ela mandava, assim. Mas precisa ver o que é mandar. Porque, por exemplo, eu me lembro que bem mais tarde... De início todo mundo já tinha casado, saído de casa, eu me lembro que um dia ela me contou que ela começou a freqüentar a Igreja Metodista aqui em São Paulo, numa casa onde nós morávamos, aí ela perguntou para o meu pai se ela podia freqüentar a Igreja, se ele dava autorização para freqüentar a Igreja. Aí o meu feminismo aflorou e eu falei: "O que é isso, mamãe? Perguntar um negócio desses Ainda se você dissesse que queria sair por aí para fazer qualquer outra coisa, passear, sei lá. Não, você quer ir para a Igreja e vai pedir autorização?" Mas ela pedia autorização, certo? Pedia autorização, e quanto à minha ira feminista ela falou assim: "Você precisa entender que as coisas não são assim, sabe? A gente precisa pedir ordem para o marido." Mas era ela que mandava. Você vê que interessante? É assim.

P - E como é que foi essa vinda para São Paulo?

R - Do interior para cá?

P - É.

R - Então, me deixa contar outro lance. (risos) Nós viemos na década de 50. Nós viemos morar numa casinha que ficava ao lado do necrotério do Hospital São Luiz, lá onde hoje é a Vila Olímpia, Itaim... Como é que se chama aquele pedaço? P/3 - Vila Olímpia.

R - Vila Olímpia. Naquela época lá era periferia de São Paulo. A Avenida Santo Amaro se chamava Estrada de Santo Amaro e era uma estrada toda curva, de uma pista só, era uma casa bem simples, e em frente há várias chácaras de portugueses plantando alface, verduras em geral. Era periferia de São Paulo. Não tinha quase casa, pouquíssimas casas. E já tinha um sobradinho onde era o Hospital São Luiz, e mais para frente, na rua ao lado tinha um necrotério e ao lado tinha uma casinha onde nós fomos morar. Mas eu lembro bem das vizinhanças, das adjacências, era cinturão verde, parte do cinturão verde de São Paulo. E mais para frente então os bairros que vinham... Minhas tias algumas foram morar lá em Vila Sônia, Ferreira e tudo, a gente ia de vez em quando, aí realmente era rural mesmo, 1950.

P - O pai da senhora o que ele veio fazer aqui em São Paulo?

R - Ele veio trabalhar eu acho que foi Cooperativa de Cotia, e depois ele foi trabalhar no Banco América do Sul, ficou muitos anos lá no América do Sul, eu acho que foi isso. Precisa conferir com o meu irmão que ele é mais atento nessas coisas.

P - Quantos anos a senhora tinha nessa época em que veio para São Paulo?

R - Eu tinha oito anos.

P - E tinha alguma expectativa sobre São Paulo? Alguma imagem da cidade?

R - Eu lembro de ter visto isso. Eu fui estudar num grupo escolar que tinha do outro lado da avenida e tinha um guardinha que atravessava a gente, um guardinha com capacete branco. Era assim. E com um apitozinho atravessando as crianças. Também me lembro de ter ido ao Guarujá com uma amiguinha da escola, ela era de família suíça, então eles mal conheciam aqui... Não que eu conhecesse muito, mas ela não tinha amizade. Aí fui junto várias vezes para o Guarujá. Aí outro dia eu fui para o Guarujá e falei: "Mas eu quero procurar esse lugar que tem aquelas pedras. Eu acho que é Pitangueiras, sabe?" Era um deserto total, não tinha nada, nada, nada. Você vê? 50... Ficamos até 1952. O que é São Paulo nessa época. Gente, olha, Vila Olímpia era periferia Eu lembro bem da estrada de Santo Amaro, ela toda. A gente pegava o ônibus para ir embora.

P - E a condição da cultura japonesa dentro de casa? Como era essa... Mesmo o idioma, se falava japonês ou não?

R - Os meus pais sempre falando em japonês. A minha mãe ela fazia assim, os filhos, chegando numa certa idade, ela ensinava japonês. Os meus irmãos, os mais acima de mim têm um ligeiro sotaque, os mais de cima. Vocês vão ver que o meu outro irmão tem um pouquinho de sotaque. Ele já tem uma história um pouco diferente porque ele ficou com a minha avó no sítio, entendeu?

P - Ah, então ele não veio nessa...

R - Não veio. Ele só veio bem depois, porque ficou no sítio lá do café e uma das irmãs, ficou a família dela e o marido. Uma das minhas tias. E ficou com a minha avó. E o meu irmão ele era muito apegado a ela, eu sei que o meu pai o deixou, ele só veio para São Paulo bem depois. Então ele deve ter... Não sei se ele... Ele é muito fechado, assim, para contar histórias. Ele deve ter estudado em escola rural, passou o tempo todo no sítio. Ele era bem moleque, bem moleque mesmo. Quando ele veio nós ficávamos até olhando aquele japonês pretinho, de olho grande, assim, magrinho, aprontando, pegando saco na rua, sabe? (risos) Era assim que fazia.

P - Quanto tempo vocês ficaram nessa casa?

R - Então, lá na Vila Olímpia ficamos de 50 a 52 e aí fomos morar... Meu pai conseguiu comprar uma casinha aqui perto de onde é a Praça da Árvore, que também era outro fim de São Paulo em 1952. Eu lembro bem quando nós estávamos chegando, porque bem ou mal, lá na Vila Olímpia, embora fosse periferia ela já tinha uma estrutura urbana um pouco melhor. Se eu não me engano a rua já era asfaltada. Quando nós fomos chegando aqui na casa, aqui na Praça da Árvore, nós fomos chegando, tinha galinha, porco andando pela rua... também era outro fim de São Paulo. Você vê. 52. E eu falei: "Papai, o que é isso aqui?" Ele falou: "É, nós vamos morar aqui." Não tinha luz na rua, teve que puxar luz de uma outra rua, de uma rua lá de trás... O que é que você falou mesmo? Ah, ficamos. Aí, de lá para cá aí foi onde eles ficaram, meus pais, ficaram até o fim da vida.

P - Você morou nessa casa até ter quantos anos?

R - Ah, eu tenho a história mais complicada da minha família. (risos) Porque eu casei e descasei, entrei, voltei e saí, saí e voltei, várias vezes. Você vê que eu sou de 64 e é meio complicada a minha história. Está ligada a outra...

P - Essa geração?

R - É, essa geração é complicada.

P - Eu sei bem como é que é. (risos)

R - Mas quando meus pais morreram eu estava morando com eles e nós saímos de lá em... Eu ainda fiquei lá até 80 e quanto? Jesus do céu Você sabe que eu não ligo muito. Eu acho que foi 82 ou 83? Porque eu me lembro bem que eu fui morar num apartamentinho lá perto, eu só consegui botar umas mobílias lá dentro com o Plano Cruzado. Não foi em 86 o Plano Cruzado?

P - Foi em 86.

R - Então, foi com o Plano Cruzado que eu consegui comprar uns moveizinhos para botar ali.

P - E você já trabalhava? Com quantos anos você começou a trabalhar?

R - Ah, eu comecei a trabalhar... Bom, é o seguinte, eu sou a sexta filha e fui a primeira a conseguir entrar na faculdade. Meus pais faziam muito sacrifício, pobres... Todo filho chegava numa certa idade vai trabalhar. Vai trabalhar e... Depois de um certo tempo meu pai já não estava mais conseguindo emprego. Ele se aposentou porque o meu irmão conseguiu registrar e... Enfim, o resto do que faltava para completar o tempo de contribuição foi na firma onde meu irmão trabalhava, e meu pai conseguiu se aposentar. Mas o meu pai... Um homem depois dos 40 anos... Isso é fato, que ele não consegue mais emprego. Então ele... A condição nossa era muito precária, os filhos é que tocavam. E minha mãe costurava de noite. E nessas condições eu fui e consegui entrar na faculdade antes. E aí fui lá para a faculdade fazer Geografia...

P - E você queria fazer Geografia?

R - No começo eu queria fazer Ciências Sociais...

R - Mas eu perdi o vestibular. Eu fui para o Rio... O meu primeiro irmão já estava trabalhando no Rio de Janeiro, lá no estaleiro, (trecho inaudível) Kawagima e ele falou: "Vocês querem vir ver o carnaval?" Nossa, fui correndo. (risos) O que é isso Poder ver um carnaval

P - No Rio

R - No Rio Acho que foi 1958... 58, 59, 60... 58. Fui correndo Fui correndo ver carnaval E aí perdi vestibular de Ciências Sociais, fiz só de Geografia. Foi isso.

P - Como é que foi a sua adolescência em São Paulo?

R - A minha adolescência? Então, nós não tínhamos muito convívio com os jovens, minha mãe era muito fechada. Ela, olha, com seis filhas, eram poucas as que conseguiam trazer uma amiga para dentro de casa, porque era uma vida de trabalho e austeridade, trabalho, austeridade. Então (trecho inaudível) adolescência, o que é isso? A gente via muito cinema. Nossa, eu ia... Domingo e Quarta. Eu só fui ver televisão com 21 anos de idade. Olha, eu sou pré televisão. Todo fim de semana era à tarde, no Domingo lá no Cine Estrela a gente via ou o Super Homem ou o Tarzan, tinha sempre um seriado, né, que interrompia e voltava no Domingo seguinte... (trecho inaudível) E assistia filme. Muito filme, muito cinema mesmo Era isso. De vez em quando um sorvete da Kibon... Gente, como era gostoso aquilo, não O palitinho... O Eskibon era um...

P - Eskibon, aquele tijolinho. Demais

R - Nossa era um néctar E a igreja. Aí eu resolvi freqüentar a igreja.

P - Mas qual, a da sua mãe?

R - Não, uma outra. Porque uma prima também, que estava aqui em São Paulo, a minha tia, as meninas, as minhas primas freqüentavam a igreja. Ela falou: "Ah, vocês querem ir?" Eu ia, era um lugar para sair, para passear. Era essa a vida. Cinema, muito estudo, igreja e também muito disco.

P - Que tipo de disco?

R - Desde a fazenda... A fazenda É a segunda vez que eu falo fazenda, não?

P - Está chegando perto agora É aviso (risos)

R - Oh Nossa Senhora

P - É uma latifundiária (risos)

R - É. Desde o sítio o meu pai trazia muitos... Ainda tem em casa os discos velhos, alguns andei doando, quebrando... Aqueles discos pesados que a gente toca só de um lado, e do outro não toca. Muito (trecho inaudível) Caruso, Tito Esquipa, não sei que lá Gobi, música napolitana, óperas, sinfonias... a gente sempre ouviu muito. Com aquele gramofone assim, de dar cordinha. P/3 - E ele ia ao cinema com a senhora?

R - Não, não. P/3 - Ele parou com aquelas projeções?

R - Isso era lá na comunidade, entendeu? P/3 - Uma curiosidade que é o seguinte, naquela época tinha o pessoal que fazia o trabalho de projeção e que saía pelas colônias e tal e projetava, então o filme era mudo e eles narravam o filme, faziam a voz dos personagens e tal. O pai da senhora fazia isso?

R - Não, já não era tempo do filme mudo, já eram filmes falados. Agora, que eu saiba eu acho que ele não saía por aí não, era para o pessoal, para os sitiantes, os sítios vizinhos, tudo, que ele chamava lá no terreiro de café... E é isso.

P - Agora vamos entrar no assunto...

R - Nossa Senhora, eu já estou contando a história...

P - Não, está maravilhoso Eu fiquei pensando...

R - A minha mãe tem uns baús... A minha mãe escrevia diários e ela acordava às quatro da manhã e ela registrava a temperatura, as condições do tempo, se estava bom, se estava ruim, e aí escrevia o diário. Tem uns baús grandes já de um imigrante. É isso aí. Um dia vou aprender, vou ter que ser alfabetizada.

P - Tem esses diários lá?

R - A gente tem.

P - Está tudo em japonês?

R - Tudo em japonês. É uma riqueza.

P - Nossa, isso é uma fonte maravilhosa.

R - Mas a família...

P - Tem alguém da sua família que lê japonês?

R - Não, não. Aí não. Mas a família acha que é uma questão privada, entende? Que não é para divulgar. Mas como ela era muito contadora de histórias eu suponho que... Nossa, eu tenho várias histórias muito interessantes, mas não vou contar.

P - Conta

R - Não, não vou contar, eu não posso. (risos)

P - Por que? É da família?

R - É da família, alguns. Outros não são da família. Mas a vida do imigrante é uma vida muito dura. Muito Quando eu assisti o filme Gaijin, da Tisuka, eu sempre falo, aquele filme da Tisuka é xarope.

P - É mesmo?

R - O filme da Tisuka é xarope Fora que o final dela, com a moça indo para a fábrica, historicamente não tem nada a ver. Mas a vida, inclusive nos sítios dos colonos, o filme é xarope, perto do que a gente ouve, sabe? O isolamento deles A vida das pessoas isoladas e sem recursos, só puxando aquela coisa de manhã e à noite. E eles que não tinham as tais das pepitas, entendeu? E é uma vida que vai ficando sem perspectiva para eles. É como qualquer um, certo?

P - E a senhora aí consegue entrar na USP na década de 60?

R - Ah, entrei, entrei na USP. Eu era boa aluna. Sempre fui boa aluna. Aí comecei a ler uns livros, certo? E comecei a fazer militância política. E daí vem 64, o Golpe...

P - Você foi de alguma organização específica?

R - Eu era da POLOP, eu era da POLOP, mas bem do comecinho. Mais para frente eu saí, conheci o pai do meu filho que era do Partidão, então era um choque ideológico. (risos)

P - POLOP e Partidão.

R - É. E aí eu deixei. Saí, mas estava sempre próxima e sempre travando as coisas assim, nos bastidores. Porque não dava nem para deixar de fazer tudo isso. Até que em 68 nos separamos e aí eu toquei minha vidinha.

P - O que você fez?

R - Eu me formei em 64 e aí, até 64 eu não trabalhava em escola, trabalhava em escritórios. Aí resolvi dar aulas. Falei: "Não, agora vou dar aulas." E fui dar aula de Geografia.

P - Em colégio estadual?

R - Colégio estadual. Mesmo porque aí, em 68, você vê que começa a abrir muita escola. Uma atrás da outra. É aquela expansão da escola pública... Porque a gente não tinha muita aula, sabe? Por isso que eu desisti de dar aula. Era muito difícil você conseguir aula onde quer que fosse. Aí então eu fui trabalhar em escritório e em 68 abriram-se muitas escolas estaduais e eu fui. Eu falei: "Agora eu vou dar aula, eu preciso." Eu estava separada, que eu tinha separado, o meu filho com dois anos e aí... Quer ver como é que é que eu comecei a dar aula, viu? Naquela época é outra coisa também, faz parte da história da mobilização dos professores. Da história do Magistério. O professor dava 44 aulas em sala de aula e não tinha uma hora atividade. Era aula, aula e aula, certo? Não tinha um momento para você corrigir alguma coisa...

P - Preparar.

R - Preparar Isso não existia. E para pegar aula então, aquela época, fora os efetivos que sempre pegavam nas escolas e mais para frente, quem não era efetivo, ia de escola em escola, com uma pastinha de documentos e ia perguntando: "Tem aula aqui? Tem aula aqui? Tem aula aqui?" Até que encontrei aulinha lá. Foi lá na Mooca. Consegui umas aulas no noturno e aí o diretor falou assim: "Tem sim, pode começar." Eu falei: "Como assim?"

P - Em que colégio lá na Móoca?

R - É no Adelina. Lá na Rua Celso Azevedo Marques. Adelina Masagão. Então comecei assim. Eu falei: "Mas como assim? Agora?" Ele falou: "É, se você quer essas aulas você tem que começar já. É pegar ou largar." Eu entrei, fui dar aula.

P - Foi dar aula direto?

R - Aula direto.

P - Aí ficou quanto tempo dando aula?

R - Ah, então, eu comecei assim, nessa época e eu fiquei... Aí então no magistério aí foi muito complicado, porque eu dei aula em sala de aula direto até 80.

P - Mas aí você chegou a prestar concurso?

R - Em seguida. Em 69 eu me efetivei, então eu me efetivei justamente nesta época. Demorou pra burro para efetivar. E para pagar então demorou mais ainda.

P - É, continuava aquela história de demorar meses para receber o primeiro salário.

R - É, meses Olha, você pode ver, demorou tanto que eu consegui, com a bolada que eu recebi, eu consegui comprar um carrinho, um fusqueta. (risos) De segunda mão, mas comprei. Olha É, um fusquetinha azul. Era um 69 que eu comprei, olha. Bom, então comecei aí... Eu tinha passado de escola em escola, porque em um ano eu fui contratada... Naquela época o professor era celetista. Era CLT. Depois surgiu outro regime, contratado a título precário, que aí não registra nem nada, era uma coisa muito precária. Mas me efetivei logo, eu fiquei na sala de aula até 80, aí em 80 eu fui trabalhar na Secretaria de Educação no setor de curriculum, mas trabalhando também no particular. Porque não dava. Fiquei na Secretaria, no setor de curriculum preparando curriculum, planejamento, dando cursos para professores... Fiquei até 87, fiquei sete anos. Foi uma época complicada também porque a gente fez uma proposta curricular que foi considerada assim, perigosa, que incitava a luta de classes. As propostas curriculares chamadas vermelhinhas. Não sei se vocês se lembram?

P - Não.

R - Então, os vermelhinhos. E aí saí, já tinha me concursado pra diretora... Quando eu resolvo sair de lá, eu volto para o Estado, eu volto para a escola, eu volto como diretora. Aí diretorei três anos na periferia também.

P - Onde?

R - Primeiro eu escolhi algumas escolas, mas eu não fui. É Santa Isabel, aqui no município. Resolvi não ir. Foi quando eu pedi remoção, fui para o José Maria Whitaker, atrás... Ao lado do zoológico. É uma situação interessante. Porque ela está num bairro muito... Que tinha um bom padrão, com um loteamento de casas, sobradinhos e tudo, mas a relação da escola com o bairros é muito complicada. E isso é uma situação de várias escolas. Os alunos não são dos bairros, os alunos são dos outros bairros próximos, mais populares, das favelas que estão ali nos entornos... E então a relação do bairro de alto padrão com a escola é ruim porque há uma rejeição. Eu fiquei lá, fiquei dois anos, depois eu fui para uma outra escola, removi mais para perto de casa, lá na Saúde, aí eu pedi exoneração, eu falei: "Eu não fico mais." Eu já estava com 20 anos de serviço de magistério efetivo. E falaram: "Mas você vai pedir demissão?" Eu falei: "Vou." Eu falei: "Eu não fico, eu não fico"

P - Só faltava cinco

R - Eu pedi exoneração.

P - Só faltava cinco Então você não pegou aposentadoria?

R - Peguei Espera aí.

P - Ah, porque você tinha outro...

R - Não, aí eu fiz o seguinte, eu fui dar aula na Escola de Aplicação. Eu falei: "Eu prefiro ser professora de sala de aula." Eu falei: "Não, eu não fico em direção de escola." Porque aquilo era de enlouquecer.

P - Que ano era isso?

R - 87, 88, 89, 90. Certo?

P - Aí foi para a Escola de Aplicação?

R - Fui para a Escola de Aplicação, dei aula três anos lá, depois resolvi prestar concurso de supervisora, aí ingressei como supervisora e fiquei mais uns três anos e aposentei no Estado. E continuei no particular.

P - Você está dando aula até hoje?

R - Eu continuo na faculdade.

P - Aonde você dá aula?

R - Eu dou aula na UNIP, de Geografia, e na UNIBAN, de Pedagogia. Quer dizer que... É assim...

P - A senhora fez curso de Pedagogia também?

R - Fiz, fiz vários cursos.

P - E em que momento da sua vida você começou a perceber que você tinha problema de coração?

R - Só quando eu tive um treco, um treco Uma vida muito agitada, inclusive com militância do PT, entendeu?

P - Em que ano foi isso?

R - Ave Desde o começo Eu sou uma das fundadoras do PT. Lá no Colégio Sion, com aquele caderninho. Foi muito emocionante, né? Imagina, eu dando aula no particular, no Estado, militância... O que mais que eu fazia? Ah, sempre fiz uns projetinhos particulares de Geografia. Projetinhos... Um serviço, uma coisa ou outra.

P - Filho adolescente.

R - Filho adolescente correndo para cima e para baixo.

P - Em que ano que foi isso que você teve problema?

R - Foi em 96. É, 1996. Eu não achava que eu... Eu nunca cuidei da minha saúde. Levando vida muito corrida... Imaginou. Eu não tinha plano de saúde, eu não cuidava de saúde... Eu na menopausa eu não tomei conhecimento. Porque as pessoas fazem reposição hormonal... Eu não fiz, não fiz mesmo. Eu acho que foi muita leviandade, sabe? É uma visão... Uma amiga minha que brinca: "Que o aço bolchevique pensa que nunca vai enferrujar." (risos) É, aço bolchevique acha que nunca vai enferrujar e enferruja também. (risos)

P - Rápido.

R - Aí foi o seguinte... E aí eu estava fazendo a tese de doutorado. Ainda tem mais essa. Eu bebia... Eu punha uma garrafa térmica, se enchia de café, fumava três maços de cigarro, tomava cerveja Nossa Senhora É uma delícia ficar num botequinho. Cerveja gelada e cigarrinho combinam. Nossa, que delícia que era (risos)

P - Está encolhendo aí? (risos)

R - Estou encolhendo? (risos) É, faz mal, viu? Cigarro faz mal. Eu me lembro que, olha, eu ia ao Cine Belas Artes e ficava lá no saguão, (trecho inaudível) assim, achando ruim, e aquilo me apertava e eu "pá-pá-pá", fumando meu cigarro. E as pessoas: "Olha, que coisa horrorosa" (risos) E eu: "Ih, mas esse pessoal que não fuma é muito chato, não?" (risos) E eu "pá-pá-pá." Nossa

P - Um atrás do outro?

R - Um atrás do outro. Fumava três maços. Olha

P - Mas na sua família já tinha tido histórico?

R - Já, minha mãe e meu pai morreram por problemas cardíacos. O meu irmão mais velho morreu de enfarto. É muita leviandade. O meu irmão mais velho, mais logo em seguida, que vocês vão entrevistar, ele já tinha tido... Já tinha feito transplante. E eu continuava fumando, tomando café, correndo para cima e para baixo, entende? Achando que a vida era assim, que eu com a minha vontade... "Não, essas coisas são muito caretas. Essas coisas de saúde. Ficar cuidando é muito careta. Não, eu não sirvo para essas coisas." Até que um dia "pumba".

P - Como foi?

R - Foi assim, eu achava que... Ah, eu tinha acabado de entregar meu relatório de qualificação, em Agosto. Mas eu tinha tido umas faltas de ar de madrugada, mas eu falei: "Ah, deixa para lá, deve ser asma, bronquite. Deve ser isso." E deixei por isso. Mas eu falei: "Olha, entreguei meu relatório de qualificação, não vou mais fumar." Parei de fumar. Aí eu lembro que ainda fui lá no dia que entreguei...

P - Foi até por conta dessa falta de ar que você sentiu que você falou: "Chega."

R - Eu falei: "Não, está na hora de parar. Chega." Eu não estava bem.

P - E parou?

R - Parei, entreguei o relatório, aí entreguei o meu último porre de cerveja com os meus amigos.

P - Com cigarro?

R - Não, sem cigarro. Bastante cerveja. Tomei cerveja "Consegui entregar o relatório de qualificação. Olha, que nessa loucura toda, correndo para cima e para baixo, entregar o relatório de qualificação" Nossa, fui festejar. Alguns dias depois eu passei mal, mal, mal, mal...

P - E começou a sentir o que?

R - Eu senti falta de ar. É uma coisa assim, eu acordava de madrugada e não conseguia respirar. Tinha que ficar sentada. É assim que acontece com você, que você puxa o ar de onde for que você não sabe de onde é. Você começa a puxar aquele ar... Depois passava, aí conseguia dormir. Mas fui ficando debilitada, muito debilitada. Aí um dia eu fiquei mal... Eu tive três dessas crises. Uma amiga minha me internou no Hospital do Servidor e aí fiz todos os exames lá, foi diagnosticado que era Miocardiopatia Dilatada. Entramos em pânico. "Mais um" Porque o problema do meu irmão também é esse. Agora, na época que ele teve isso os médicos diziam que talvez fosse uma causa virótica, tudo. Mas com o segundo caso, que era o meu, aí viram que tinha uma certa propensão familiar. Fora que a questão cardíaca na minha família é... Foram três que morreram por causa de coração. Pai, mãe e irmão mais velho. Foi de lá para cá... Nossa, aí minha vida mudou da água para o vinho. Eu parei tudo Ah, e eu já tinha me aposentado. Graças a Deus. Alguns meses antes eu tinha me aposentado como supervisora de ensino. Foi bom. Eu consegui terminar a qualificação. Então, mas e as aulas do particular, que eu tinha? Entrei em licença... O interessante é que... No Servidores é muito complicado o tratamento. Eu não tinha nem vaga para fazer tratamento. E aí o meu irmão providenciou o meu acompanhamento pelo InCor.

P - Quanto tempo a senhora ficou lá no...

R - No Servidores? Eu fiquei internada eu acho que uns 15 dias, não mais que isso, mas com diagnóstico e tudo, e depois eu comecei a fazer o tratamento com o acompanhamento da família e tudo e aí eu segui a risca tudo o que os médicos disseram. Disseram que eu tinha que reduzir... Lógico que cigarro, café cortei. Cerveja, essas coisas, agitação... Um grama de sal por refeição. Um grama de sal é uma colher de café rasa. A gente tem que cozinhar tudo sem sal. E aí no prato você põe o sal onde você acha que deve pôr. Eu fiz isso e caminhada todo dia, uma hora, e sem agitação. Eu fiz isso rigorosamente. Água, líquido eu podia tomar 800 ml por dia. Olha

P - Contando tudo?

R - Tudo, até sopa Até a água que eu tinha para tomar o remédio eu tinha que calcular, que fazia parte da minha cota líquida por dia.

P - Mas isso já começou desde que você saiu do Servidor, do Hospital?

R - Do Servidores. E depois acompanhando no InCor... E o interessante é que depois o médico que me acompanha é o mesmo do meu irmão. Então ele consegue fazer um paralelo, sabe?

P - Como é que a senhora começou a tratar aqui? Como foi?

R - Então, eu vim aqui pelo meu irmão que me trouxe para cá, tentei ver com o doutor... Como é que se chama? Ah, eu sou ruim de nome.

P - Tudo bem.

R - Depois não deu certo com o outro médico, o doutor Marcelo, e eu encaixei com o doutor Bacau, certo? E é isso. Ele também acompanha meu irmão. Aí eu fiz o acompanhamento rigoroso. Aí o aço bolchevique funcionou mesmo, viu? (risos) Eu falei: "Eu vou fazer assim." E fiz, certo? Com muita disciplina.

P - A senhora chegou a ser internada mais alguma vez?

R - Em seguida fui internada mais uma vez aqui no InCor.

P - Teve mais uma crise? O que é que foi?

R - Fiquei muito mal, mas aí... Foi interessante, foi quando... Olha, foi oito... Setembro... Fui internada em maio. Setembro. Outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril e maio. Oito meses depois fui internada aqui. Mas ele dizia assim: "Olha que interessante, não tem..." Eu já estava bem melhor. Ele dizia: "Os exames mostram que o seu coração está bem melhor." Aí eu fiz exame de tudo. Nossa Ou eu tinha algum problema no ouvido, eu passava mal, eu tinha tontura, eu não conseguia respirar. Eu já estava com depressão, entende? Eu entrei num processo depressivo porque eu fui privada de tudo. Fui privada primeiro do trabalho. Eu gosto do meu trabalho. Das coisas que eu fazia sempre, que mais? Cigarro, café, a cerveja... Mudei meu ritmo.

P - A agitação, o ritmo que você já estava acostumada.

R - A agitação E a perspectiva de me tornar uma pessoa dependente e inativa, isso me horrorizava. E aí... O problema é uma questão emocional forte que geralmente acompanha os cardíacos que falam assim. Então eu entrei em depressão, entrei numa complicação danada. E aí comecei a fazer tratamento. Ah, sim. Fui fazer o remédio com homeopatia. Fiquei oito meses na homeopatia, e a Elaine aqui me acompanhando. Fiquei um ano com a Elaine, de 97 a 98 com a Elaine. Eu vinha uma vez por semana sempre aqui.

P - E que tipo de atendimento a senhora teve aqui? A senhora, por exemplo, teve contato com o serviço de psicologia?

R - Então, o serviço de psicologia aqui do InCor.

P - Ah, esse que a senhora disse que vinha uma vez por semana.

R - Elaine, a Elaine é psicóloga daqui.

P - Como é que foi essa aproximação? A psicóloga vinha conversar com a senhora ou a senhora (trecho inaudível)?

P - Tinha um cardiologista que...

R - Não, porque é o seguinte. Eu recebi uma cartinha do setor de psicologia do InCor pra... Eu falei: "Deve ser coisa de praxe para os cardíacos." E aí quando eu fiquei mal eu resolvi procurar.

P - A senhora mesmo teve a iniciativa de procurar?

R - Eu e minhas irmãs também me ajudaram. Porque eu estava muito abatida, muito deprimida. E como eu falei: "Tem essa brecha aqui do serviço de psicologia do InCor." Eu vim. Eu fiquei um ano aqui vindo toda semana, toda semana. Primeiro era em grupo. Aí, como é que foi que em grupo... por que eu deixei de vir em grupo? Eu sei que foi um tempão que eu fiquei em grupo, depois eu deixei de vir em grupo... Ah, meu horário. Porque aí eu estava trabalhando. Eu dou aula. Eu fiquei de licença médica...

P - (trecho inaudível) quanto tempo a senhora ficou?

R - De licença médica?

P - É.

R - Eu fiquei de licença médica um mês em 96 e um mês em 97, fora isso eu estava o tempo todo trabalhando. Trabalhar ajudou muito.

P - Aí voltou para esse colégio particular mesmo?

R - Isso, na faculdade. Na faculdade dá para você levar. Eu acho que se eu tivesse continuado como professora de Primeiro e Segundo Graus não teria conseguido. Na faculdade.

P - Imagina, oitava série (risos)

R - Ou quinta série

P - Quinta série

R - Mas quinta série é uma gracinha, viu? Eu gostei muito.

P - Eles pegam na mão

R - É aquelas canetinhas hidrocor assim. (risos)

P - (trecho inaudível) (risos)

R - Põe vermelhinho, assim, depois põe verde

P - Aí tem um sol. (risos)

R - É, aqui assim. Sempre pede para esperar para mudar de canetinha. Elas são organizadas. É uma gracinha a quinta série. Então, mas eu trabalhando fiquei de licença pouco. E fui melhorando. Mas fiquei um ano aqui com a Elaine aqui me acompanhando. E o interessante é que do ponto de vista cardíaco eu sou um caso de cura. O caso de miocardiopatia é transplante. 5 ou 10% é que tem cura. E eu estou encaixada nesses 5 ou 10%, sabe?

P - Loteria.

R - Loteria. Epa Nossa Agora me cuido Se estiver com problema de unha encravada eu vou cuidar, viu? Nossa Agora eu cuido tudo (pausa) Tudo que eu não cuidei agora eu faço. Então, aí, no começo, dizem que quando eu fiquei mal... Tem um índice lá que eu não sei como é que se chama... É capacidade de bombeamento de sangue, do coração. O normal é 0,6. Vocês devem ter 0,6 não sei que lá, uma medida. Eu tinha ficado com 0,30 e não sei quanto. Eu estava pela metade da capacidade de bombeamento. Então aquela falta de ar que eu sentia era o pulmão encharcado de sangue, que o coração não bombeava. E eu superei isso com o medicamento. Tomei muito medicamento, com caminhadas diárias, refeição controladíssima, tira gordura, tem um regime que eles dão aqui... Levei à risca. Minha irmã fala assim: "Você fez um tratamento científico." "Fiz." A conseqüência disso foi eu me sentir tão privada de tudo é que entrei em depressão. Eu estava já com esse índice normal, eu não tomo mais nenhum remédio. Do ponto de vista cardíaco estou curada.

P - Se cogitou o transplante com a senhora?

R - Não, ninguém falou isso, entende? A primeira coisa é tentar um tratamento. Caso não dê certo se vai entrando num estado que o coração fica comprometido, aí o recurso é transplante. No caso do meu irmão ele tentou tratamento, mas não deu certo, aí ele foi para o transplante.

P - E a senhora acompanhou o tratamento do seu irmão aqui?

R - Acompanhei. Não, no caso dele é o seguinte, ele estava em Nova Iorque quando ele teve o problema cardíaco. E aí ele... É que foi complicado, imagina uma pessoa que está em plena ascensão, aí ele vai falar o que aconteceu com ele. O problema foi lá e ele já veio com o diagnóstico de que ele tinha que fazer um transplante. Ele veio para cá e imediatamente ele foi transplantado. Foi assim, esperou um mês mais ou menos.

P - Foi tudo muito rápido?

R - Muito rápido O InCor estava começando com esse programa todo.

P - E naquela época você acompanhou essa internação?

R - Então, acompanhamos, porque nós ficamos todos em pânico

P - Nossa

R - Sabe o que é um transplante há 15 anos atrás? Era um horror.

P - E naquela ocasião a senhora teve algum tipo de contato já com o serviço de psicologia?

R - Eu não. Ele, ele fez.

P - O seu irmão? Ele fez já naquela época?

R - Ele fez naquela época. Então essa perspectiva de acontecer a mesma coisa comigo, de fazer transplante. Eu falei: "Não, o que é isso?" Eu até hoje eu tenho medo de que eu fique com problema cardíaco de novo. Eu tenho uma condição cardíaca que não me... Eu estou fora do quadro de Miocardiopatia já. Eu não tomo mais medicamento nenhum. Só tenho que ser boazinha, entendeu? (risos) Então eu sou boazinha. Mas como sal, comida salgada... Não salgada, mas tempero normal, líquido normal, tudo normal.

P - E a senhora faz acompanhamento de quanto em quanto tempo?

R - De seis em seis meses.

P - Volta aqui no InCor?

R - Agora eu estou fazendo o doutor Bacau fora, entendeu? Porque é muito complicado aqui. É fila... Então faço o doutor Bacau fora. Mas é de seis em seis meses. Eu faço o Ecocardio, Eletrocardiograma, tudo. E dá... E não tem problema. Ele só diz: "Está bom, só tome cuidado, leve a vida normal." E eu levo a vida normal. Trabalho adoidado No semestre passado eu trabalhei, trabalhei De segunda a sábado Aí larguei. Falei: "Não, eu não posso fazer isso comigo. Agora eu só trabalho três dias. Chega. Já trabalhei bastante. Pelo amor de Deus, depois de 30 anos de magistério. E essa história de vida Não" Mas bem que eu queria fazer algumas coisinhas, entende?

P - A senhora em algum momento antes de ter passado pelo serviço de psicologia a senhora já tinha tido contato com terapia? Em algum momento tinha passado por isso?

R - Cheguei a fazer sim uma terapia rápida lá pelas bandas... seis meses. 1980 e alguma coisa. Ah, sim, já lembro, foi 89 que foi a eleição do Collor.

P - Foi 89.

R - Não, mas não foi porque... quer dizer... (risos)

P - Não foi? (risos)

R - É, essa sim. (risos)

P - É uma ótima... (risos)

R - Não, porque, sabe? Foi justamente... Foi uma fase difícil, inclusive do ponto de vista de perspectiva de você olhar para frente e você não ver muita coisa. E você fala: "Puxa vida, o que é tudo isso?" Eu fiz terapia seis meses. Foi a única vez que eu fiz. Mas aí... 89, faz tempo Dez anos atrás.

P - Aí a senhora ficou fazendo um ano aqui?

R - Fiz, um ano com a Elaine.

P - Mas era terapia, era um acompanhamento? Como é que foi esse atendimento?

R - Olha, era terapia individual.

P - Terapia individual mesmo?

R - Isso, com a Elaine, é.

P - Tinha alguma linha específica que foi seguida?

 

R - Olha, eu nunca perguntei muito para ela isso aí não. Eu sabia um pouco dessas coisas, mas também já deixei de saber.

P - Ah, está bom.

R - Está bom. Já estou bem, não é? Eu não sei exatamente qual é a linha dela.

P - E como é que a senhora avalia a importância que teve esse serviço?

R - Fundamental Fundamental Porque eu acho que... Eu estou curada Eu só continuo com o acompanhamento, fiz o acompanhamento... Porque você tem que fazer a análise e tomar remédio, aí precisa de psiquiatra. Eu fiz com o homeopata dez meses. Ainda fiquei assim: "Ah, ainda faltou alguma coisinha." Aí eu fui para o psiquiatra ortodoxo, alopata e tomei um bocado de tempo os remédios alopáticos.

P - Qual a senhora tomava?

R - Ah, tomei Aropax e depois... Como é que chama aquele outro? Tegretol? Não, Tegretol é outro. Ai, tomei dois tipos de remédio. Esqueci.

P - Tudo bem.

R - Mas eu tomei muito Aropax e Tegretol... Mas eu estou bem, sabe? Olha como eu estou hoje Passei pelos dois grandes problemas da virada do milênio. A depressão e o problema cardíaco.

P - Quer dizer, a senhora teve aqui também um atendimento muito profissional?

R - Tive, tive atendimento profissional competente.

P - Desde a dieta, serviço psicológico...

R - Desde a dieta, o acompanhamento psicológico, um atendimento competente, sério.

P - E aí o serviço de psicologia também te deu alta, chegou um momento?

R - Eu pedi alta para a Elaine. Eu falei para a Elaine: "Elaine, eu acho que é o seguinte, hoje eu estou vindo aqui, mas eu acho que eu não venho mais. Eu estou bem..." A minha visão é o seguinte, é um serviço público. É o serviço público, gratuito, usei dele como um direito meu, como contribuinte, mas uma vez que eu não tenho mais nada eu acho que eu tenho que deixar vaga para o outro, certo? Eu falei: "Elaine, eu acho que é melhor eu não vir mais que eu já estou bem." Foi isso, foi em Julho do ano passado que eu larguei.

P - E a Elaine?

R - Ah, ela é muito gentil, muito calma. Ela falou que achava que se eu achava isso, que então realmente está tudo certo. Então eu estou tocando a minha vidinha, trabalhando... Só não volto às militâncias disso, daquilo e não sei mais o que porque não tem mais fôlego, eu estou com57 anos.

P - Bom, e nem o cenário tem tanto fôlego. (risos)

R - Nem o cenário... Não, até teve um pouquinho agora.

P - É, a Marcha dos 100 mil.

R - Mas sempre tem. Mas eu dou aula.

P - Vai fazer uma caminhada até Brasília?

R - Não, também não (trecho inaudível) (risos) Mas a gente como professora sempre tem o que fazer. Então é isso. Tem muito que fazer.

P - E na sua família como foi? O seu filho em todo esse processo, como foi a reação familiar?

R - Ah, muito... Já imaginou? Isso hoje em dia é muito comum. Alguém ter um filho mestiço, para começar, sem casar oficialmente, papel, igreja, cartório, essas coisas aí... Nossa Foi uma coisa assim, super mal vista. Hoje não, hoje é uma coisa comum, mas naquela época foi... a família se sentiu assim, não sei como.

P - E quando você teve o problema de coração, assim, como é que ele ficou?

R - O meu filho?

P - É.

R - O coitado estava fazendo o mestrado. Olha, ele estava fazendo mestrado em Pirassununga, e quando eu estava internada ele estava defendendo a dissertação dele em Pirassununga. Só foi a namorada para dar apoio. Eu não pude ir.

P - Ainda bem que ele tinha uma namorada (risos)

R - Você vê? Então ele não pôde fazer muita coisa. Ele estudou em Pirassununga na graduação e na pós. E lá tem o alojamento. E durante muito tempo ele ficou lá nos alojamentos, e vinha para casa o fim de semana. Esse sempre foi o sistema dele. Então ele sempre foi muito independente. E depois, em seguida ele se casou, está lá no interior...

P - Ele tem filhos?

R - A mulher dele tem um filhinho de quatro anos.

P - Que era dela já?

R - Que era dela já. E ele está aí, pai. Ganhou um filho.

P - Você tem um neto-enteado.

R - É, tenho um neto. Neto torto.

P - Pensando assim na sua trajetória de vida, se a senhora pudesse mudar alguma coisa a senhora mudaria?

R - Ah, tem hora que eu acho que sim, tem hora que eu acho que não, entende? Eu mudaria alguma coisa, por exemplo, eu não podia ficar tão pobre tanto tempo. (risos) Não é verdade? Ah, mas isso é... A gente tem que... Sabe, a penúria financeira ela maltrata muito. Por exemplo, olha, eu agora estou conseguindo comprar um apartamentinho porque uma das minhas irmãs que se mudou para um outro apartamento, ela resolveu me vender este apartamento em condições especiais, entende? Não fosse isso... Porque você cria um filho sozinha trabalhando como professora o tempo todo, mesmo você se transformando em diretora ou supervisora de ensino no magistério não tem condições de você... A não ser que haja alguma retaguarda financeira da família. Eu sou de uma família pobre. Meus irmãos conseguiram algum padrão razoável e tudo, mas cada um com a sua família. Mas a condição é muito difícil. Agora, a pobreza financeira é... Agora, eu não posso nem falar isso hoje em dia porque o pessoal está correndo atrás de salário, atrás de emprego. Então, por exemplo, o semestre passado, depois que eu terminei o doutorado eu falei: "Ah, que delícia, terminei este doutorado, deixa eu ir trabalhar um pouco mais." Já sarada. Aposentada, com poucas aulas, eu falei: "Eu vou trabalhar mais." Começou a pintar um monte de proposta, eu catei tudo, entendeu? Eu falei: "Num país onde todo mundo corre atrás de emprego, está aparecendo eu vou recusar emprego?" O que é isso Catei tudo. Ah, mas era muito. (risos)

P - Mas você também já tem uma outra relação com esse tipo de trabalho, você já entra de outra maneira.

R - Lógico, não tem outro jeito.

P - A senhora tem um grande sonho?

R - Ai meu Deus do céu Um grande sonho. É levar uma vida boa, sabe? Assim, cotidiana, boa... E o resto a gente vai fazendo. Eu sou dos tempos em que a gente gritava "Abaixo o imperialismo" na rua e hoje em dia não grita mais, certo? Mas acho que tem outras coisas para a gente fazer que são coisas miúdas que podem ser feitas... Por isso que eu acho a história de vida interessante. Na Geografia também rola essa coisa da Geografia do cotidiano. A minha tese é sobre a Geografia do cotidiano.

P - Ah, que interessante Qual é o tema?

R - Olha, o tema é o seguinte, é violência e conflito na escola, é geografia da escola. Porque é o seguinte, eu passei anos na periferia convivendo com o conflito, e, no final, quando diretora eu administrava o conflito e a violência, e ela é uma coisa muito complicada. A minha tese é sobre violência e conflito vista da ótica da escola na relação da escola com o bairro, o bairro de origem dos alunos. E é muito interessante ver como isso aí vai... Se você começa a tirar o fio do novelo de lã você vai longe, sabe? Você vê coisas incríveis. Então é sobre isso a minha tese.

P - A senhora quer falar mais alguma coisa?

R - Não, não. Vocês foram perguntando e eu fui falando. (risos)

P - É uma delícia. O que a senhora achou da experiência de ter contado essa história para a gente, da sua vida, enfim...

R - Olha, é que eu conto muito esta história, entende? Eu conto muito, por exemplo, assim, como... Tudo, assim, no total não, mas assim em trechos, em aspectos que interessam eu conto muito em aula porque eu acho que ela ilustra alguns momentos... Você pode usar a história de vida, o cotidiano como partes de um determinado contexto, sabe? Como a gente se coloca como pessoa numa outra realidade contextual que vai acontecendo. E eu acho que tem uma relação muito grande disso dessas coisas todas, eu uso muito em aula. Fora também que... Bom, de entrevista inteira assim nunca dei não, de cabo a rabo. Mas assim, pedaços...

P - E o projeto do serviço de psicologia, por exemplo?

R - Ah, sim, para a Elaine eu contei muitos aspectos, muitos trechos da minha vida. Porque interessa, assim, porque isso vai... Por exemplo, eu ainda hoje penso que eu tenho uma relação... Eu entro de outro jeito no trabalho, mas eu tenho uma relação muito difícil com o trabalho, certo? A gente aprende a ser competitivo. Então você entra e você já vai assim. Já vai de dente cerrado. Hoje eu já sei descerrar as mandíbulas. Você entra assim, você entra competindo, você entra... Você se estressa. Eu aprendi a trabalhar o meu stress, mas aprender a trabalhar com o stress não significa que eu estou sempre conseguindo me desestressar, entende? Mas eu tenho um dado. Principalmente nesses dias eu tenho relaxado na caminhada. Eu falo assim: "Epa, não posso relaxar na caminhada. A caminhada é fundamental." Então eu vou me colocando as coisas na circunstância em que eu estou. Eu dependo de mim, sabe? Eu dependo de levar uma vida saudável, isso é bom Eu já esfrego na cara de um cunhado meu que ele está com enfizema pulmonar e não consegue parar de fumar, entendeu? E eu fico: "Bom, você está fazendo atentado contra a sua vida." Eu dou uma lição para ele porque eu também atentei contra a minha vida, não é? E muitas vezes a gente atenta mesmo. Então a minha relação com esta situação toda é de aprendizado. Com o problema cardíaco que foi superado, com a depressão que foi superada, mas nada é definitivo. Eu posso... Tanto que eu falo para o doutor Bacau: "Nossa, doutor, o senhor acha que eu posso voltar a ficar de novo com esse negócio?" Ele fala: "Não, calma, o que é isso." "Estatisticamente quais são as probabilidades de um retorno?" Eu já fico assim. (risos) Eu quero a garantia. Qual é, não é?

P - É, por escrito, de papel passado.

R - Por escrito, eu quero que ele ponha o carimbo de médico ali, de que eu não vou ter mais isso. Não, depende de mim. Então a gente tem que levar uma vida saudável. Mas com baixos salários e agora sem emprego, você acha? O que vai acontecer com esse pessoal todo, não é?

P - Depressão e problema do coração, doença do fim do milênio. (risos)

R - E quem tem emprego, uma parcela muito grande é chamado trabalho flexível. Essa expressão... como se diz? P/3 - Neo escravista.

R - É expressão... Vamos deixar para lá. Mas é trabalho flexível, é trabalho de empreitada, trabalho para projetos. Terminou projeto corre atrás do outro. Igual meu filho, ele trabalha.

P - O que é que custa, não é?

R - O que é que custa. Fica só esperando, entende. (risos) O meu filho é estressado. Eu já falo para ele: "Puxa vida." Ele já é neto de cardíaco que morreu de... É filho de uma pessoa que teve problema cardíaco e olha, que coisa boa, eu estou bem para burro. E ele se estressa para arrumar serviço. Como é que vai fazer? Ele trabalha por projeto, ele fica alguns meses parado, ele fica correndo atrás. Não é? Qual é a perspectiva das pessoas? Eu falo para os meus alunos: "Olha, vocês podem dizer assim, puxa vida, ela agüentou 30 anos no magistério estadual público e tem uma aposentadoria irrisória..." Mas eu digo assim: "Sabe o que vai acontecer com vocês? Será que vocês vão ter aposentadoria?"

P - Nem essa.

R - Nem essa. Onde está o emprego? Onde está o salário? Ou então o salário já é uma coisa que a gente não corre. A gente lutava por reposição salarial, agora tem que lutar por emprego. É uma coisa dramática que está acontecendo. Eu acho que o que a gente vê que quem trabalha o trabalho flexível leva a um estressamento tão grande que precisa aprender a... Ah, tem um detalhe, eu sou praticante de Tai-Shi-Shuan, sabe? Então isso me ajuda, entende? Eu acho que esse dado é importante. Já faz muito tempo que eu faço. Eu sou uma pessoa tensa, sou agitada, sou... Eu tenho que me ver toda hora que eu estou fazendo isso. O Tai-Shi-Shuan ajuda, e mais o que eu tive. Ajuda-me mais ainda, me ajuda a me administrar. É, sabe? Daqui para frente... O negócio é fazer Tai-Shi Shuan que é de graça. (risos)

P - Num parque...

R - Num parque, eu vou, faço minha caminhada lá na praça. Já me falaram que é bom ter um cachorrinho, mas eu não quero cachorrinho. (risos) Quem tem cachorrinho não tem problema cardíaco. Não preciso de cachorrinho. Só preciso de mais dinheiro para conseguir pagar o meu apartamento e pronto. Certo? Não é isso?

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